Ausländer




 

Por Priscilla Buhr

 

– Você viaja para reviver seu passado? – era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte forma: – Você viaja para reencontrar seu futuro?

E a resposta de Marco:

– Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

 

 

Quando sabemos que um trabalho chegou à reta final de sua trajetória? Como sabemos em que lugar aquelas imagens ganham sentido e materializam os sentidos de uma história? Em 2013, depois de dois anos trabalhando na edição do ensaio “Ausländer” e da premiação no Prêmio Brasil de Fotografia, a única certeza que eu tinha era de que precisava trilhar um longo caminho para me encontrar naquele trabalho. “Ausländer” ainda tinha muito o que me revelar, mas me vi tomada pela ansiedade de publicar, de tornar aquele emaranhado de sentimentos em algo tátil. Resolvi me aventurar em editais, contatos com editoras, realizadores e, quanto mais justificava aquela história tão frágil em textos para formulários, mais me afastava do real sentido de “Ausländer”. O entendimento dessa capacidade narrativa da fotografia se pôs além das formalidades, das normas, dos contratos. O alargamento de suas fronteiras, suas tradições, pedia a escuta do tempo, a necessidade do respiro, do olhar para o individual de cada sujeito envolvido nas tensões daquela história.

Uma história que se iniciou em junho de 2011, durante uma viagem de vinte dias que fiz pela Alemanha, na tentativa de um encontro com todo o significado da palavra ascendência. O destino: o vilarejo de Nannhausen, terra do meu avô. Na verdade tudo começou em 1935, tempos difíceis que antecediam a Segunda Guerra Mundial, e meu avô materno, com dezoito anos, deixava a Alemanha e chegava ao Brasil. Para trás, ficaram os pais, os amigos, os sonhos. Cresci ouvindo suas histórias e buscando referências daquele país que, de alguma forma, também sentia como meu. Setenta e seis anos depois, fui em busca de respostas para perguntas que não sabia bem quais eram. Encontrei ruas vazias, apenas um silêncio quase absoluto, que me conduziu ao encontro da casa em que meu avô nasceu. Um encontro de poucas palavras, de uma troca de olhares tímidos e um sentimento indescritível de se sentir no eixo, no princípio. Um encontro findo, breve. Um encontro que me deixou um cartão de memória corrompido e nenhuma fotografia. Setenta e seis anos depois e não me restou sequer uma fotografia. Assim como meu avô, também não levei comigo registro daquele espaço de memória. “Não era pra ser.” A frustração aos poucos me dava essa resposta, e fui entendendo que, de fato, eu não poderia me apropriar de uma imagem de memória. Aquilo pertencia apenas ao meu avô.

 

 

Costumamos jogar nossos afetos às imagens que retratam as pessoas que amamos, os lugares em que vivemos, as coisas que experimentamos. E quando conseguimos jogar toda essa carga afetiva na fotografia do Outro, naquilo que não vivemos necessariamente, mas que estranhamente sentimos como nosso? […] É uma simulação do que significam aquelas imagens que não fizemos, que perdemos, que simplesmente sumiram da nossa memória ou do cartão de memória. É um resgate. É como olhar-se no espelho: estou ali. Inseguro, incerto, mas estou. Estou? Será que eu sou aquilo em que eu me projeto? Reconhecer-se é tão “sem palavras”. Quantas coisas eu vejo, mas principalmente grita aquele que sempre permanece – o vazio –, e essa bagagem, que eu carrego e que insiste, insiste, insiste…

Bella Valle, sobre “Ausländer” pro 7Fotografia.

 

Assim, nasceu “Ausländer”, que, em alemão, quer dizer estrangeiro. Um ensaio que retrata o paradoxo dos sentimentos despertados durante a procura por uma identificação pessoal em uma terra desconhecida, distante e, ao mesmo tempo, impregnada de memórias e raízes. Uma história sobre busca, sobre um reencontro imaginário entre neta e avô.

As fotografias surgiram a partir do processo de identificação com o desconhecido naquele país; mas, mais do que isso, as imagens surgiam como se eu fotografasse, para mostrar para o meu avô como eu via e sentia a sua terra. A inquietação da contradição, entre se sentir estrangeira e, ao mesmo tempo, fortemente ligada afetivamente a uma terra, guiou a construção do meu olhar, sobre as minhas relações com o espaço e com o vazio. São fotografias que revelam os sentimentos diante de memória familiar quase inexistente. Memórias que me habitam e fazem-me sentir habitante de um lugar que não é o meu. “Ausländer” é um ensaio sobre a construção dessas memórias e, assim, precisei me reencontrar com outra casa.

Um ano após a minha viagem para a Alemanha, voltei meu olhar para a casa em que meu avô viveu no Recife. Um lugar em que também vivi grande parte da minha infância, mas que me despertava uma série de dúvidas sobre a veracidade das lembranças que tenho dos momentos que vivi ali. Reais ou imaginárias? Nunca terei essas respostas, e, de alguma forma, essa ausência de certezas me possibilitou um reencontro com o meu avô e, ainda que no meu imaginário, pude lhe mostrar essas fotografias que criei sobre a sua ausência em mim.

Ao mesmo tempo em que toda essa subjetividade me encantava e me movia, também me gerava uma série de dúvidas sobre a “viabilidade” daquele ensaio enquanto “obra”. Desde que o ensaio começou a tomar forma, sentia que aquelas imagens não pertenciam a paredes. Não me parecia verdadeiro pensar aquela obra em um projeto expográfico, em uma ocupação de espaços expositivos. “Ausländer” desde o início me dizia que seu espaço era um território íntimo a ser apreciado individualmente. Sempre o vi como livro. Sempre desejei folheá-lo. Mas não o encontrava, em meu imaginário, ocupando uma prateleira. Eu via “Ausländer” guardado no fundo de uma gaveta, quase escondido, ou até mesmo esquecido. Era isso que aquelas fotografias me pediam.

Foi aí que a palavra publicar passou a não fazer tanto sentido quanto a palavra realizar. Sentia que a potência de “Ausländer” estava em um lugar de encontro íntimo, raro, pontual, que de certa forma poderia perder sentido, ou adquirir outros, em reproduções, tiragens, edições. “Ausländer” me pedia a privacidade de um artefato pessoal, a intimidade de uma caixa de memórias. Um risco assumido. Risco da perda, risco do dano, risco do esquecimento. “Ausländer” se tornou um artefato tão frágil quanto uma memória e, assim como uma, ganhará marcas, fissuras, perderá forma com o tempo.

A partir daí, foram mais dois anos de reencontro com os sentidos do trabalho para tentar encontrar as respostas daquela história. Eu precisava acreditar que “Ausländer” não se encerrava no conceito de fotografia de família, mesmo sendo um trabalho sobre família. Também precisava ressignificar o conceito, compreendê-lo e assumi-lo.

No momento em que “Ausländer” se torna um ensaio, a memória familiar era um dos temas de bastante ênfase na arte contemporânea. Mais do que a memória em si, os caminhos de ressignificação dessas lembranças, desses fragmentos inerentes e pulsantes. O artista criava e se reconhecia, preenchendo lacunas com memórias, fossem elas reais ou imaginárias, de tempos e sentimentos que ficaram para trás, na tensa coexistência entre o que foi e o que já não pode mais ser.

A fotografia inserida nesse contexto se apresentava tácita na vida do homem contemporâneo, algo a ser cuidadosamente revelado, reconstituindo narrativas emocionais, contemplando a atmosfera de tempos passados e nos envolvendo em sua complacência de guardar o efêmero da vida. “Ausländer” partia do pressuposto de que as coisas com as quais nos ocupamos, na fotografia, estão em constante desaparecimento, e, uma vez desaparecidas, como fazê-las retornar? Eu não podia revelar e copiar uma lembrança perdida, mas podemos criá-la. Assim, mais uma vez, voltei o meu olhar para a ausência de lembranças vívidas da relação com meu avô materno e preenchi as lacunas vazias criando um lugar imaginário, um híbrido de Nannhausen, na Alemanha – terra onde meu avó nasceu – com Recife, em Pernambuco – terra onde meu avô viveu. Voltei ao rascunho para encontrar o problema/solução de “Ausländer” e entender que minhas imagens tratavam de algo muito mais simples, porém não tão palpável: o afeto.

Segundo José Saramago, fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória, e nesse espaço-memória, recriei laços afetivos em um diálogo sobre ascendência, ausência, saudade, reencontro, aproximando universos e culturas distintas. Nesse problema/solução foi possível imaginar a materialidade daquela história. “Ausländer” passou, enfim, a fazer sentido como livro. Mas que tipo de livro? Que tipo de suporte abarcaria aqueles sentimentos densos, porém voláteis e frágeis de uma memória familiar fragmentada, presentes nas fotografias do ensaio?

Sentia necessidade de mergulhar no universo das publicações. Principalmente das que subvertiam o uso comum dos livros, incorporando neles novas experimentações estéticas, transfigurando o livro em obra de arte, e não apenas um suporte para a arte. Entendia que o conceito do livro de artista seguia o desejo de ampliar e buscar novos caminhos para a arte, questionando os espaços expositivos convencionais e propondo aos espectadores experiências estéticas que rompessem com uma contemplação restrita à visualidade vinculada aos espaços/publicações tradicionais.

Entendia que o projeto “Ausländer” precisaria unir a publicidade da força de um livro com o cuidado de uma concepção de um projeto gráfico e conceitual, como uma experiência pertencente e essencial ao processo de criação do livro como arte. Ter a obra nas mãos, folheá-la, senti-la, experimentá-la e torná-la relíquia, no sentido literal da palavra, como algo de alguém que se respeitou e se admirou. Mas que caminho para uma publicação viável esse projeto precisava percorrer?

“Ausländer” pedia folhas em branco, vazios, escritos à mão, cheiros, texturas e cores diferentes. “Ausländer” pedia para ser um objeto suscetível às marcas do tempo e que envelhecesse junto com as memórias ali contidas. Pensar processos de concepção, edição, diagramação e escolha de materiais passou a ser uma busca de referências no acervo da própria família. Iniciei uma pesquisa nos cadernos, agendas e cartas dos meus avós. Observando o papel, o desenho dos escritos, texturas, dobras, costuras. Nas fotografias do arquivo familiar busquei referências nas paletas de cores, no gestual, no vestuário, nos tecidos. De alguma forma entendi que “Ausländer” pedia um resgate da forma como guardávamos nossas memórias, teria que ser confeccionado e não produzido.

Encontrado o norte que faltava sobre o trabalho, deparei com uma questão que envolvia ego e realização. Desde o início do percurso de concepção do ensaio, já se haviam passado quatro anos. De alguma forma queria encerrar o ciclo de um trabalho com uma publicação, sentia necessidade de dizer que havia publicado um livro. Desejava vê-lo em festivais, queria que circulasse. Eu queria um livro. Vislumbrei a possibilidade de publicá-lo por uma editora alemã e, mais uma vez, me vi tentando colocar aquele emaranhado de histórias e referências em um texto para formulário. “Ausländer” cabia ali? Que lacunas seriam preenchidas nessa trajetória se eu seguisse por aquele caminho?

“Ausländer” surgiu levantando uma série de questionamentos importantes sobre a minha história e o meu lugar no mundo a partir da perspectiva de memórias perdidas e me dizia, cada vez mais, que o sentido buscado durante aqueles quatro anos só seria compreendido se eu seguisse naquele caminho com meus próprios passos. E mais uma vez o coloquei no lugar que ele pedia: um fundo de gaveta, guardado ao lado de objetos importantes. Era o momento de se reconectar.

Foram mais alguns meses de silêncio até o convite de Denise Gadelha para a exposição Fotos Contam Fatos. Eu me vi diante da situação que não queria de forma alguma para a realização do livro desse projeto: com prazo para entrega, um curto prazo para entrega. E foi justamente no lugar do desconforto que fui capaz de confeccionar o meu livro/objeto.

As minhas escolhas foram sendo tecidas, costuradas com retalhos dos fragmentos das histórias da minha família, como uma espécie de mapa cartográfico ou árvore genealógica cheia de falhas. “Ausländer” passava a construir histórias de um passado que pudesse ressignificar os conceitos de álbum fotográfico de família que conta uma história sobre memória, ruptura e laços. Uma ficção construída sobre uma narrativa visual fragmentada pelos nossos esquecimentos.

O processo de confecção do “Ausländer” se deu de forma bastante intuitiva. O tempo, ou melhor, a falta de tempo para a produção acabou sendo uma grande aliada, pois me apresentou a simplicidade como solução. Eu poderia ter optado por um suporte mais sofisticado, como os antigos álbuns e relicários de família, mas preferi trabalhar a obra como uma espécie de caixa de memórias, onde vamos acumulando objetos de grande valor sentimental, mas que muitas vezes só fazem sentido em uma determinada linha de tempo das nossas vidas. Diversas vezes me peguei imaginando como seria folhear aquele objeto/livro trinta anos depois. O que faria sentido? Que novas histórias aquelas imagens poderiam me contar? E essa incerteza tão presente no conceito afetivo de memória me acompanhou no desenvolvimento dessa ideia.

“Ausländer” precisava ser, de alguma forma, um objeto preparado para receber tanto no sentido subjetivo, como no literal; eu sentia que em algum momento, em algum lugar, alguém poderia deixar ali, junto ao meu “relicário”, alguma coisa que pudesse levar a minha história para outros caminhos. Daí desenvolvi uma espécie de embalagem de tecido, como os antigos diários, com bolsos e pequenos compartimentos. Costurei-a à mão em um retalho de tecido de algodão cru que minha avó usava para fazer almofadas, e minha mãe bordou a palavra “Ausländer” com linha preta na frente. Começar o processo de confecção do livro pela embalagem, de certa forma, me remeteu a uma história contada de trás para frente. Onde o “fim” se tornava o suporte de toda a história que seria contada. E que rumos elas tomariam eu já não alcançava mais, nem fazia tanta questão de delimitar esse futuro.

Em uma das pesquisas nas caixas de cartas do meu avô encontrei um pequeno caderno em branco, com folhas pautadas já bastante amareladas e com marcas de ferrugem dos grampos. No mesmo instante tive certeza de que ali eu escreveria a história de “Ausländer”, e aquelas palavras não poderiam ocupar o mesmo espaço das fotografias, sentia que faria mais sentido se viessem em folhas soltas, colocadas em algum dos bolsos da embalagem, como se fossem cartas escondidas à espera da descoberta, com o desejo de revelar segredos, sentimentos. Além do meu texto, convidei minha irmã, Karina Buhr, para escrever sobre aquela história que também era dela. Não faria muito sentido colocar ali, ao lado de objetos tão pessoais, palavras de alguém que não tivesse visto o meu avô sentado na varanda de casa, conversando em alemão com seu melhor amigo, que viera junto com ele de navio, fugindo da guerra já anunciada. Aquela cena deles lá, conversando por horas, precisava fazer sentido para alguém que fosse escrever sobre “Ausländer”. Por mais que eu tivesse certeza de que contaria com belos textos escritos por críticos, professores ou curadores de fotografia, as palavras informais da minha irmã desenhadas à mão naqueles papéis amarelados bastavam.

O livro, em si, deixou de ser um objeto singular e se tornou dois pequenos livretos encadernados e costurados à mão, caminho que encontrei junto com os designers d’A Firma, que me ajudaram nas soluções gráficas do projeto. Não queria, de forma alguma, que o livro se tornasse formal, com diagramação clássica, cortes perfeitos, algo clara e perfeitamente diagramado com aspecto de um livro padrão. Eu precisava contar aquela história de uma forma mais solta, simples, e nos encontramos muito bem na construção desses caminhos.

No livreto principal, usei papel Desenho200 da Canson com as 25 fotografias do ensaio e encartei, em papel-manteiga, reproduções de fragmentos de cartas, envelopes, fotografias danificadas, que foram guardados por anos pelo meu avô e contavam muito de sua história naquelas falhas.

No segundo livreto, usamos o Pergamenata Naturalle 160 para imprimir os versos das fotografias do início do casamento dos meus avós, meados de 1950. Nos versos encontrei algumas breves anotações sobre as imagens, datas, numerações, descrições que nos levam a uma infinidade de possibilidades quando só os temos. Aqueles versos das imagens que não revelam o real conteúdo me remetiam às fotografias que perdi em 2011 e faziam de “Ausländer” um território ainda mais remoto e volátil. Junto aos livretos, uma fotografia 3/4 preta e branca do meu avô dentro de um envelopinho de papel de caderno dobrado por ele mesmo e uma fotografia minha com meus avós no aniversário de cinquenta anos de casamento deles.

“Ausländer” enfim podia ser tocado, folheado, e com ele nas mãos tive a sensação de que havia encontrado o sentido que tanto busquei: não se tratava de uma reprodução de memórias, ou reencontro com o passado, ou busca pelas origens. “Ausländer” é o que quem encontrar com ele sentir que ele é. É um emaranhado de ficções reais, de histórias pessoais e públicas, de sentimentos e vazios. E não só é, como também se torna. A fragilidade de “Ausländer” é o seu sentido, que só é compreendido quando escutamos as nossas próprias ausências e perdas.

 

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