Exposição Arquivo 17 abriu dia 24 de agosto




No dia 24 de agosto às 18 horas, O Museu da Imagem e do Som de Campinas recebeu a abertura da exposição Arquivo 17, de Fernanda Grigolin.  O momento foi acompanhado de um bate-papo com a artista juntamente com o fotógrafo paraense Mariano Klautau e a pesquisadora catarinense Regina Melim, sob mediação da curadora da exposição, Paola Fabres.

A curadora Paola Fabres iniciou a conversa trazendo o processo de acompanhamento que ela realizou junto à artista, seus trabalhos e o pensamento de espaço da própria exposição. Ela contou que a respeito das decisões e diálogos que realizaram, ela e Fernanda, sobre o conceito dos trabalhos e sua montagem no MIs/Campinas. O local era originalmente a casa do Barão de Itatiba e isso fez com que um dos trabalhos pensados por Fernanda Grigolin fosse o site specífic denominado Arrimo-Barricada.

 

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Fernanda Grigolin dando sequencia à fala de Fabres comenta que, o trabalho é o lugar organizador de toda a proposta espacial. Uma pilha de sacos de café interrompe a porta principal da exposição. “O café, símbolo oligárquico brasileiro, que é produto do esforço das pessoas trabalhadoras na época do império: os negros. O café também liga o lugar império com o início da industrialização do Brasil e com as mulheres. As indústrias de saco de juta estiveram entre as primeiras indústrias instaladas na cidade de São Paulo, emprego de mulheres, emprego subalternizado por mulheres. O saco de juta também simboliza o primeiro motim silencioso das mulheres”, diz Grigolin.

Mariano Klautau abordou a relação histórica entre documento e documental, contextualizando com o trabalho de Grigolin Sou aquela mulher do canto esquerdo do Quadro. Segundo ele, o vídeo é o mais o toca em relação a todos os trabalhos presentes na exposição. “A mulher do canto esquerdo é uma linha desfiada na trama do documento urdido pela história. A garota ressurge no vídeo de Grigolin para que possamos desfiar outras linhas, percorrer a extensão da imagem, encontrar novas figuras a olhar para câmera, nos deter em pequenas passagens e movimentos dos transeuntes, revisitar o acontecimento, e perceber outros tantos que habitam as margens do quadro. A partitura criada por Fernanda Grigolin para observar o documento alterna o piano melancólico e os silêncios e desarma delicadamente um mecanismo pautado no centro, modificando o olhar para fora da imagem no mesmo momento de um outro mergulho para dentro do quadro”, afirma Klatau.

Regina Melim foi a última a falar e emocionou as pessoas presentes, por volta de 80 visitantes transitaram na abertura naquele momento.  Melim falou da relação das mulheres subalternizadas pelo trabalho doméstico e leu um dos livros da trilogia Tijuana Maid de Martha Rosler, artista estadunidense da segunda onda do feminismo. Melim irá publicar em 2018 a versão de Tijuana Maid ao português.

Abaixo um dos trechos  de Rosler lidos por Melim:

 

Fizemos um acordo e acabei de pagar aos homens.  Era verão, as crianças estavam no campo e a patroa foi visitá-los por uns dias. Uma noite, eu estava lendo em meu quarto, quando o patrão bateu na porta. Disse a ele para esperar, pois tinha que me vestir, mas ele entrou e veio em cima de mim. Tratei de escapar, ele me agarrou forte e saímos na briga. Ele tentava me beijar e me atirou na cama. Rasgou a minha roupa de baixo, começou a forçar, mas eu consegui me safar. Corri para o banheiro e fechei a porta. Ele bateu, quase quebrando a porta, e eu comecei a chorar. Mesmo depois dele ter parado de bater, eu tive medo de abrir a porta, pois pensei que ele podia estar escondido em algum lugar do meu quarto. Eu sabia que não tinha nenhuma esperança com a polícia porque eu estava ilegal, e porque esse tipo de gente tem dinheiro o suficiente para se safar. Finalmente, ouvi a porta da frente se fechar, o barulho do carro, e ele se foi. Recolhi todas as minhas coisas, saí correndo do meu quarto e fui embora. Peguei um ônibus até o centro de San Diego e passei a noite ali esperando o ônibus para a fronteira. Depois desse incidente, eu conheci quatro mulheres que tinham sido violentadas pelos seus patrões, uma delas ficou grávida. Então, depois de tudo isso, posso dizer que eu tive sorte.

Sobre Arquivo 17

Arquivo 17 é um projeto de artes visuais idealizado pela artista Fernanda Grigolin, que parte do seu levantamento de pesquisa e documentação sobre o universo das pessoas trabalhadoras no Brasil no início do século XX, passando pela Primeira Grande Greve Operária, ocorrida no ano de 1917. Uma mulher (a mulher do canto esquerdo do quadro), apontada pela artista nos registros acolhidos, é a narradora do projeto que expressa sua subjetividade por meio de um arquivo: fatos históricos são convertidos em vivências interiores. Para a construção da narrativa, Fernanda se debruça no imaginário dos ativistas anarquistas do passado e, com o olhar de hoje, aproxima as lutas pela vida com as reverberações sociais atuais, 100 anos depois.Arquivo 17 contemplou trabalhos em vários formatos, como instalação, vídeo, fotografias e publicações.  Durante os dias de exibição no MIS/Campinas, 24 de agosto a 09 de setembro, 310 pessoas passaram pela mostra e houve público de cidades do interior e da capital paulista. O projeto contou com o apoio do Proac (Secretaria de Cultura de São Paulo). 

O processo pode ser acompanhado no site: www.arquivo17.com

 

 

Atividades relacionadas:

Abertura da exposição Arquivo 17, de Fernanda Grigolin, com Bate-papo com Fernanda Grigolin, Regina Melim e Mariano Klautau, mediação de Paola Fabres
Data: 24/08
Horário: 18h às 22h.

Atividades de visitação:

Visita guiada para estudantes do EJA:
25/08 (sexta-feira)
Horário: 18h às 22h

Visita guiada para convidados de São Paulo, Piracicaba e Limeira, com bate-papo com Fernanda Grigolin e Paola Fabres.
26/08 (sábado)
Horário: 18h às 22h

Visita guiada de encerramento, com Bate-papo com Christina Lopreato, Idilio Cândido Neto da União Fenikso Nigra de Campinas, Fernanda Grigolin, Fernando de Tacca e Samanta Colhado.
09/09 (sábado)
Horário: 18h às 22h