Como o feminismo entrou na minha vida

December 23, 2016 - Enunciação, Vol.01. n.01. 2016.

Por Madalena Guilhon

Em 1975, com 32 anos, após 13 anos morando no exterior, separada, dois filhos pequenos, voltei ao Brasil. A “segunda onda” do movimento feminista brasileiro estava se iniciando no bojo da realização da primeira Conferência da Mulher da ONU, na cidade do México. Setores progressistas na luta contra a ditadura aproveitavam para promover seminários e encontros sobre o tema.

Identificada com as ideias feministas, comecei a participar do “Brasil Mulher”, grupo feminista com sede em SP ligado à uma organização política clandestina. No Rio, éramos cerca de 12, todas solteiras na faixa dos vinte, eu e outra com trinta e poucos, separadas e com filhos. Com muita leitura, reflexão e debate, praticávamos a horizontalidade e a solidariedade coletiva. Editávamos um jornal tabloide com matérias de interesse das mulheres e, ao mesmo tempo, participávamos intensamente do movimento contra a ditadura e pela anistia.

Nos anos 80, com a anistia, a redemocratização, o surgimento de novos partidos e a volta dos exilados, o movimento das mulheres ganhou impulso. Grupos feministas surgiram por todo o país, alguns autônomos, outros ligados a partidos e sindicatos. Estes foram obrigados a atualizar suas ideias sobre os direitos das mulheres, não sem resistência e polêmica interna. Militantes homens, e mesmo muitas mulheres, não aceitavam o ideário feminista. Nos acusavam de dividir o movimento contra a ditadura denunciando o preconceito, a opressão e a subordinação, não só no espaço público como também nos relacionamentos interpessoais.

As feministas se rebelavam, não aceitavam imposições, reivindicavam mais espaço para suas questões. “O privado também é político” e “nosso corpo nos pertence” eram as principais consignas. Feministas construíam alianças com mulheres de bairros populares e trabalhadoras. Subir favelas e ir à periferia era comum na minha vida, mesmo nos finais de semana e feriados. O movimento se fortalecia, atos públicos e passeatas em favor dos direitos das mulheres cresciam em todo o país. Finalmente, a mídia tradicional foi obrigada a cobrir o que estava acontecendo, dando visibilidade ao movimento das mulheres no país.