Edição impressa atual

Jornal de Borda _ISSN 2359-3954 _ N.5, fevereiro de 2018
Concepção e edição: Fernanda Grigolin
Projeto gráfico: Lila Botter
Equipe editorial: Caio Paraguassu e Ieda Lebensztayn
Participam: Andrea Beltramo, Andrea Mendes, Anelise Csapo, Antonio Carlos de Oliveira, Caróu Oliveira, Camila Valones, coletivo ocupeacidade, Darío Marroche com microutopias, Danilo Perillo, Fausto Gracia, G>E (grupo maior que eu), Jael Caiero e Inmensidades, Jully Vasconcelos, La Cucaracha, Leonardo Araujo Beserra, Leonello Zambon, Lívia Aquino, Lívia Auler, Magui y Muma por Casa Sofía, Mane Adaro, Marcio Harum, Museo de Arte Contemporáneo de Montevideo (MACMO), Nathanael Araújo, Peter de Brito, Raquel Stolf, Rosana Paulino, Thiago R, Traplev, Rose Steinmetz com Alejandra Velasquez, Brenda Corso, Daniela Corradi, Erika Sanchez, Laura Cruz, Laura Ruiz e Zully Benitez

Encarte: Sou aquela mulher do canto esquerdo do quadro texto, pesquisa e edição de Fernanda Grigolin, projeto gráfico de Lila Botter e coedição de Paola Fabres. Fontes das imagens: Arquivo Edgard Leuenroth (AEL/IFCH- UNICAMP), Cinemateca Brasileira e Arquivo 17 (www. tendadelivros.org/arquivo17)

Homenagens a Maria A. Soares, Paul Beatriz Preciado, Maria Emilia Cornejo, Juana Belén, bell hooks, Gilka Machado, aos pensadores descoloniais e a todas as tecelãs e costureiras anônimas que lutaram por formas dignas de viver

Agradecimentos Antonio Carlos de Oliveira, Cecilia Correa, Centro Cultural Ocupa Ouvidor 63, Christina Lopreato, Edna Virgínia, Fernando de Tacca,  Jaqueline Soares, Paola Fabres, Paulo Silveira, Perla Sofía, Regina Melim, Maria de Lourdes Grigolin, Mariano Klautau,  Marina Mayumi, Paula Monterrey Sobral, Samanta Colhado Mendes e Vanda Grigolin

Jornal de Borda#05 from Fernanda Grigolin on Vimeo.

A edição presente é a quinta, e o jornal existirá até a décima. Em cada número, o Borda se articula com uma temática posta no cotidiano, quanto ao próprio fazer da arte e quanto a suas relações com temas urgentes.  

 

En la mitad del camino recorrido

Fernanda Grigolin

he vuelto al camino de la soledad

al camino de la transparencia y la limpieza

he vuelto a los lugares inéditos

donde miedos milenarios pugnan por salir.

he vuelto

yo lo sé,

a la angustia de una noche que se acaba,

al poema terminado,

al silencio,

a mi vida.

María Emíla Cornejo

Jornal de Borda chega à metade do seu caminho. A edição presente é a quinta, e o jornal existirá até a décima.  A edição atual propõe este mote: Reconhecer os próprios privilégios é o primeiro passo para entender as desigualdades sociais e lutar contra elas. A frase foi posta em cartaz, página de livro de artista e conceito de montagem da exposição Arquivo 17.

Com essa frase/provocação, o Jornal não tem o intuito de dar respostas, a tentativa é falar com outros, individual e coletivamente, sobre o reconhecimento de nossos privilégios. Cada pessoa convidada deu à frase a sua resposta, na medida da sua vivência, do seu lugar de fala.

Quem está no Borda 05

O Jornal é composto por 29 participações mais o encarte Sou aquela mulher do canto esquerdo do quadro. Artistas, editores, historiadores, mulheres migrantes, militantes anarquistas, militantes do movimento negro, ativistas LGBT e mulheres feministas estão aqui; todas e todos habitantes de  países da América Latina – Brasil, México, Argentina, Colômbia, Chile e Uruguai. O encarte são as primeiras palavras da mulher do canto esquerdo do quadro: ela viveu a greve de 1917 e outros momentos da Primeira República; é uma ficção que dialoga com fatos históricos e com mulheres então atuantes.

Esta edição teve como gatilho o “Despertar feminino”, de Maria A. Soares, de 1914: exposição lúcida e atual de uma mulher anarquista com muito conhecimento da realidade. O texto de Maria são as palavras finais do Borda, porém ele não está concentrado em um local, ele se espalha por todo o jornal ao encontrar mulheres contemporâneas a mim e atuantes. Foram convidadas quatro mulheres feministas militantes para responderem à Maria Soares e trazerem o seu dia a dia: ora como mulher negra e artivista, Andrea Mendes, ora como feminista militante descolonial, Camila Valones, ora como companheiras anarcofeministas, Anelise Csapo e Jully Vasconcelos. “Despertar feminino” e as quatro Respostas à Maria A. Soares dão o ritmo, a textura do jornal e convocam o leitor a uma reflexão sobre a invisibilidade das mulheres no nosso cotidiano e a invisibilidade das anarquistas como referências dentro dos feminismos latino-americanos.  Suas evocações se encontram com os textos de: Antonio Carlos de Oliveira, que discute os próprios privilégios e traz sua militância anarquista; Caróu Oliveira, historiadora e pesquisadora de sexualidade; Jael e Imensidades, duas artistas que realizam fanzines e possuem discussão sobre mulheres gordas e cultura LGBT. As últimas poderiam ser a ponte para se falar das conexões entre arte e feminismo que estão com: Andrea Beltramo e o trabalho de Interjecciones Sur; Mane Adaro, editora e pesquisadora nas relações entre arte, fotografia e feminismo; Lívia Auler, que pesquisa a invisibilidade das lésbicas nas artes, e Rose Steinmetz, que traz os encontros com as artistas de rua, moradoras do Ocupa Ouvidor, a maior ocupação artística da América Latina.

Nossa capa é um trabalho de Leonello Zambon, mapa afetivo, político e espacial do Hospital de Borda, o hospital psiquiátrico de Buenos Aires, e os percursos e encontros dele com o Jornal de Borda. Conheci o artista na Feira Paraguay e iniciamos então uma conversa. Há outras participações também resultantes de diálogos: do Grupo maior que Eu (G>E), coordenado por Karlla Girotto, convidado a pensar criticamente os manuais pelos coaches de relacionamento, e de Magui e Muma do espaço independente de arte e política, Casa Sofía em Buenos Aires, que criaram uma sequência de trabalhos sobre o tema do Jornal e um blog com o conteúdo.

As contribuições de Raquel Stolf, Leonardo Araújo e Darío Marroche atuam nas bordas da relação com a palavra escrita e suas estruturas e conversam com as crônicas de Nathanael Araújo e Márcio Harum. Já La cucaracha se utiliza de linguagem publicitária para realizar paródias, algo que se aproxima da participação de Lívia Aquino. Thiago Ruiz também tem o cotidiano e a linguagem simples como base, porém com eles produz som. Peter de Brito e Rosana Paulino e suas pesquisas sobre corpo, arte contemporânea e ancestralidade afrobrasileira também estão aqui.

Os privilégios de todos mudam de cara e roupagem de acordo com o trânsito de nossos corpos, poderia ser o resumo do texto de Fausto Gracia. A frase tema “Reconhecer os próprios privilégios” exposta imensa na rua pelo coletivo ocupeacidade ou mesmo em outra dinâmica e língua como a de Traplev demonstra que repetir um lema em outras dimensões e grafias faz dele um trabalho compartilhado. A dimensão também é o campo de Danilo Perillo, artista que trabalha no cerne da questão gráfica e suas proximidades e distâncias.  

Bem-vindes ao novo Borda, o Borda da metade do caminho trafegado.  

 

Notas:

 

1- Não se sabe ao certo se Maria A. Soares é Maria Antonia Soares ou Maria Angelina Soares, duas irmãs anarquistas de atuação muito importante atuação em uma São Paulo de cem anos atrás. Os escritos das irmãs Soares são parte da minha pesquisa de doutorado, mas o encontro com esses textos só foi possível devido às pesquisas de outras mulheres que se debruçaram na vida das anarquistas, como é o caso dos trabalhos de Samanta Colhado Mendes, Maria Izilda de Matos e Margareth Rago; e também ao mestrado pioneiro de Raquel Rolnik, e ao trabalho atualíssimo de Christina Lopreato e a nossas inúmeras conversas formais e informais sobre aquele momento e a atuação dos anarquistas.

 

2- A invisibilidade das mulheres não advém simplesmente da sua falta de produção de conhecimento, e sim do fato de haver muitas outras relações estabelecidas pelo sistema de opressão, nutrido pelo capitalismo, pela colonialidade e as instituições, as quais são pautadas pelo paradigma do homem, branco, heterossexual e abastado. Como seria hoje se textos como “Despertar feminino” fossem de amplo alcance? Jamais será possível saber, pois a história não foi contada por nós, mulheres. Desta maneira, ao me debruçar nas inúmeras mulheres do passado me inspiro na temporalidade feminista. É um termo cunhado pela historiadora da arte Giovanna Zapperi, que viria a ser algo anacrônico, com presente e passado em suspensão e tendo fraturas e descontinuidades (frequentemente apagadas pela historiografia, mas constitutivas da temporalidade histórica), vindo à tona e possibilitando que novos significados se tornem visíveis.

 

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