Serra da Ermida 357




Por Daniela de Moraes

 

Creio que os livros devem ser feitos de histórias, as histórias que a gente conta, que a gente escuta, recria, multiplica, inventa. As histórias nos permitem aproximar o que está distante, nos permitem o devaneio e o sonho.

A história que vou contar aqui começa há seis anos quando fui morar em Jundiaí, avizinhando-me à Serra do Japi. De longe podia avistar a floresta e lá no alto um observatório astronômico abandonado [23°13’55.7”S 46°56’26.4”W][1]. Costumava olhar as montanhas e pensar quais mistérios elas guardariam e resolvi mais tarde falar de alguns que eu já conhecia.

Serra da Ermida 357[2], não é o projeto de um livro único, trata-se de uma trilogia em que proponho uma reflexão sobre a história do avô que meu filho não conheceu. O avô de Lorenzo – assim como centenas de brasileiros – cometeu suicídio em 1990 após o confisco das aplicações bancárias determinadas pelo Plano Collor. Lançado há vinte e seis anos para tentar – sem sucesso – conter a hiperinflação do país, o pacote econômico e suas medidas abusivas abalaram a sociedade, provocaram a falência de empresários e afundaram famílias, criando traumas complexos de serem superados. Nesse projeto, faço uso de arquivos imagéticos diferentes para criar uma obra que abranja, compreenda e ressignifique a história deste avô, possibilitando uma leitura visual diferente para Lorenzo.

A primeira série de fotografias denominada “Frêmito”[3] fiz durante os anos de 2013 e 2014 sobre o caminho que o avô de meu filho trilhou, na Serra do Japi, até chegar ao local onde cometeu suicídio (loteamento Serra da Ermida). Através dessas imagens,[4] apresento minhas impressões de um lugar cheio de histórias que permeiam meu imaginário, a questão das escolhas e rumos que tomamos em nossa vida.

Na segunda parte recrio uma espécie de ‘álbum de fotografias’, ao perceber a semelhança das feições do meu filho com o avô quando criança, começo a coletar antigas fotos para reconstruir cronologicamente a história deste homem/avô, criando uma série onde todos os familiares e amigos aparecem ocultos ou são excluídos das fotografias.

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Na terceira parte faço uso de fotos coletadas de notícias de jornais da década de 1990, contextualizando o momento sócio-político-cultural vivenciado pela população brasileira naqueles anos. Li muitas notícias e percebi que elas não eram esclarecedoras, a confusão foi tanta que as pessoas não entendiam o que estava acontecendo, por isso optei em construir imagens pouco legíveis e que pudessem expressar a sensação de ‘choque’ divulgada na mídia.

 

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Em Serra da Ermida 357 minha intenção é misturar um pouco dos mistérios da vida e da morte com a política recente do nosso país. Indiretamente o trabalho aborda o tema do suicídio, que a meu ver está na esfera do indizível, talvez por isso as imagens façam tanto sentido aqui.

Como referência que traz à tona o tema, temos a obra profunda e instigante do artista André Penteado – Não estou sozinho – que trabalha, em séries fotográficas e em vídeo, a questão do luto pela perda de um parente querido por suicídio. No vídeo ele coleta depoimentos de pessoas que frequentaram um grupo de apoio a familiares de suicidas (SOBS Survivors Of Bereavement by Suicide) em Londres. André passou a participar dos encontros do grupo após o suicídio de seu pai em 2007. Como você se sente? foi a pergunta feita pelo artista para a realização do vídeo,[5] onde é possível ouvir os relatos e ver somente as mãos dos participantes, em uma única tomada e sem cortes. Em outra tela paralela, há sempre uma imagem de torneira pingando, que vai mudando sutilmente de acordo com a narrativa proposta.

Segundo Fontcuberta (2010),

a fotografia, em sua origem, teve que se aproximar da ficção para demonstrar sua natureza artística, e seu objeto prioritário consistiu em traduzir os fatos em sopros de imaginação. Hoje, ao contrário, o real se funde com a ficção e a fotografia pode fechar um ciclo: devolver o ilusório e o prodigioso às tramas do simbólico, que costumam ser finalmente as verdadeiras caldeiras onde se cozinha a interpretação de nossa experiência, isto é, a produção de realidade[6].

Assim, é possível pensar que o processo narrativo não é apenas o encadeamento dos fatos. O uso da memória, o passar do tempo e a possibilidade de novas interpretações podem construir uma nova narrativa repleta de verossimilhança.

Ao construir artisticamente minha interpretação afetiva sobre a história do avô de meu filho, apresento também a história do pai, do irmão, do amigo e do tio de centenas de brasileiros. Abordando questões sobre vida e morte, ausência e permanência, tento encontrar um novo sentido para velhas inquietudes universais.

Enquanto finalizo este texto, tento finalizar também os livros: depois de elaborar vários bonecos, experimentar tamanhos variados e formatos distintos, ainda não decidi qual será o definitivo. Toda criação tem a questão das infinitas possibilidades, por isso creio que antes da impressão final devemos mostrar os bonecos, conversar, trocar ideias. De qualquer maneira o livro converte-se em uma construção coletiva.

 

Referências:

FONTCUBERTA, J. O beijo de Judas. Fotografia e verdade. Trad. Maria Alzira Brum Lemos. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, SL, 2010.

PENTEADO, A. Não estou sozinho. Exposição no Centro Cultural São Paulo. São Paulo-SP. 25 de junho a 21 de agosto de 2016.

[1] Coordenadas geográficas do local.

[2] O projeto Serra da Ermida 357 foi contemplado pelo Edital ProAC nº 16/2015 Livro de Artista, encontra-se em andamento e será lançado no segundo semestre de 2016 em parceria com a FOTÔ EDI TORIAL.

[3] Abalo, tremor, estremecimento, rumor, sussurro.

[4] Algumas fotos da série podem ser visualizadas no meu site: http://www.danielademoraes.com.br/1fremito/fremito.html

[5] Disponível em http://www.andrepenteado.com/index.php?/dadssuicide/como-voce-se-sente/ Data de acesso: 26 jun. 2016.

[6] FONTCUBERTA, J. O beijo de Judas. Fotografia e verdade. Trad. Maria Alzira Brum Lemos. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, SL, 2010.