SOU AQUELA MULHER DO CANTO ESQUERDO DO QUADRO: UMA LINHA DESFIADA NA TRAMA DO DOCUMENTO




 Por Mariano Klautau Filho
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Tocar um documento é um ato de aventura. É necessário cuidado ao percorrer sua superfície e compreender sua extensão. Tocar um documento é desafiar sua sombra e entender seu mecanismo. É perceber o ritmo de suas imagens. Tocar um documento é desarmá-lo, desfiá-lo, destramá-lo. Tocar um documento é fazer girar suas espirais.
Quando a garota no bairro do Ipiranga, em São Paulo, chegou em seu vestido quadriculado, para ver o cortejo dos funerais do Comendador Nami Jafet, em 1924, notou que havia uma câmera a registrar a população nas ruas na despedida do proprietário da fábrica de tecelagem e estamparia. A câmera a colocou nas margens do quadro, assim como o fez com os diversos anônimos que habitam esse documento cinematográfico.
Mas Fernanda Grigolin trouxe o canto esquerdo para o foco ao se aventurar na narrativa tramada pelo documento histórico. O gesto da artista traz para mais perto de nossa atenção a figura da menina do bairro operário paulistano, ambiente marcado pela grande indústria têxtil, pelos movimentos trabalhistas, pelas organizações políticas, pela presença da mulher.
Os segundos em que a garota aparece no filme original são dilatados, alterados por um movimento de apreensão sobre a superfície da imagem. A nova duração que Grigolin imprime ao documento é um ato de verticalidade, considerando o formato do retrato, em contraposição à horizontalidade do formato paisagem.
A mulher do canto esquerdo é uma linha desfiada na trama do documento urdido pela história. A garota ressurge no vídeo de Grigolin para que possamos desfiar outras linhas, percorrer a extensão da imagem, encontrar novas figuras a olhar para câmera, nos deter em pequenas passagens e movimentos dos transeuntes, revisitar o acontecimento, e perceber outros tantos que habitam as margens do quadro. A partitura criada por Fernanda Grigolin para observar o documento alterna o piano melancólico e os silêncios e desarma delicadamente um mecanismo pautado no centro, modificando o olhar para fora da imagem no mesmo momento de um outro mergulho para dentro do quadro.

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