Exposição Arquivo 17

A exposição Arquivo 17 aconteceu de 24 de agosto a 09 de setembro no Museu da Imagem e do Som de Campinas (SP), levou 310 visitantes de mais de oito cidades do estado de São Paulo, além de convidados especiais de outros estados (de Santa Catarina, a pesquisadora, editora e curadora, Regina Melim e, do Pará, o fotógrafo, pesquisadora, artista e curador, Mariano Klautau); bate-papo com historiadoras (Christina Lopreato e Samanta Colhado), especialistas no campo da imagem (Fernando de Tacca) e ativistas (Idilio Cândido Neto); visitas guiadas para convidados e para o EJA (Educação de Jovens e Adultos). Houve também atividades preparatórias: lançamentos do Jornal de Borda em cinco cidades, de quatro estados distintos, e a conversa Toda solidariedade aos grevistas na Casa do Povo, em São Paulo. O projeto Arquivo 17 aconteceu em um momento de cem anos da Greve de 1917 e muitas comemorações estabelecidas pelas pessoas trabalhadoras.

Arquivo 17 se insere em um contexto dessas comemorações, porém é um projeto em arte e não tem uma finalidade de resgate ou levantamento historiográfico/ iconográfico. Sabe-se que a CUT, juntamente com a AEL, realizou uma exposição itinerante, que tenta estabelecer uma resposta definida entre 1917 e 2017, demonstrada por uma expografia que faz o hoje abraçar o ontem por meio de painéis em formato de meia-lua. Diferente dessa proposta, os próprios ativistas anarquistas realizaram ações e proposições comemorativas de forma mais continuada e bem antes do ano do centenário. E que aconteceram no campo expositivo também, todavia o resgate apresentado por eles (os militantes anarquistas) teve um aspecto propositivo, subjetivo e simbólico, trazendo a memória daqueles que estiveram e lutaram em 1917 e com relações expográficas mais abertas e com mais possibilidade de fruição de quem visita. Cito a exposição realizada pelo Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri, ela dá visibilidade aos rostos de ativistas, pondo na montagem potencialidades de ontem, juntamente com a atuação deles que persiste no hoje mas sem uma resposta uníssona.

Arquivo 17 não partia do lugar sobre ou de um levantamento representativo, é uma proposta expositiva e de pesquisa com o recorte artístico e as relações possíveis entre arte e política. A montagem da proposta foi pensada com a Greve de 1917. Ela é parte de um projeto que acompanhou o tema, de modo a somar, uma maneira de olhar com, levando em conta o marco da greve, porém, não sobre a Greve em si ou em nome de qualquer coisa que se estabeleceria de uma maneira conclusiva, apesar de assumir-se a preferência de um olhar dado pelo feminismo descolonial contemporâneo e pelo movimento anarquista de cem anos atrás.

A utilização de imagens históricas foi posta em várias situações da edição e do processo: no Jornal de Borda, nos ícones dos sons no espaço virtual e no livro de artista. No campo expositivo, privilegiaram-se imagens de mulheres a partir de uma temporalidade feminista e junto a elas foram trabalhados outros elementos como: som, música, instalações, biblioteca e mapas.

A temporalidade feminista é um termo cunhado pela historiadora da arte Giovanna Zapperi, que viria a ser algo anacrônico, com presente e passado em suspensão e tendo fraturas e descontinuidades (frequentemente apagadas pela historiografia, mas constitutivas da temporalidade histórica) vindo à tona e possibilitando que novos significados se tornem visíveis. Assim, em lugar de trazer imagens de comícios repletos de homens e seus chapéus, privilegiaram-se relatos, imagens e elementos das mulheres trabalhadoras. Apesar da Greve ter sido iniciada pelas pessoas do sexo feminino, há uma ausência imagética dessas mulheres tanto nos contextos de rua quanto de reuniões daquela época. Por isso também, há uma instalação de sacos de café em homenagem às costureiras de juta, e integram a exposição fotografias de álbum de família de mulheres históricas, como as das irmãs Soares.

Arquivo 17 pretendeu ser visto como um aparelho espacial, expositivo e discursivo. A pesquisadora é a própria artista da ação, mas quem convoca é a narradora construída. A Mulher do Canto Esquerdo do Quadro, que narra o que viu e o que presenciou, ora relacionado à sua vida pessoal e experiência direta (em primeira pessoa do singular), ora como espectadora direta ou em comunhão com outros. A voz pessoal, que é política, torna-se mais pública quando acessa a voz e a ação de outras mulheres históricas.

O projeto só foi possível com o apoio do Proac 15/2016 e o trabalho de sete meses que realizei no AEL – IFCH/UNICAMP de setembro de 2016 a abril de 2017. Minha relação com o tema iniciou na minha adolescência, nos anos 1990, e depois foi amadurecendo nos anos 2010 com pesquisa em acervos e arquivos públicos e privados.

(Fernanda Grigolin)

Abaixo vídeo da exposição Arquivo 17. A Tenda de Livros fez cobertura especial que pode ser lida no site do projeto, aqui

Veja o álbum no facebook com todas as imagens.